quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

UM DIA DAQUELES...

Hoje fica a descricao dum dia que nao quero esquecer. Dum dia que me marcou a todos os niveis. Ironia do destino, perdi o meu diario de Calcuta num autocarro. Aquele caderno onde tinha oracoes, mails, pensamentos, contactos, enfim, apercebi-me que a escrita e a fotografia sao para mim essencias para nao esquecer. Para perpetuar tudo aquilo que sinto em cada momento e me ir lembrando. E por isso, aqui fica o pouco que me lembro deste dia fortissimo...
Acho que foi domingo passado. Depois da missa as 6h, fui para Prend Am com a Joan, porque tinhamos uma visita especial a meio da manha. Nesse dia, lavar as roupas durante 1h30 custou-me bastante. Estava ainda cansada da ultima desinteria (tinha ficado na vespera em casa doente), e estar aquele tempo de pe a lavar roupa foi puxado. Pelas 10h, fui ter com a Joan a ala masculina, onde ela estava a fazer um curativo a um doente e deparei-me com uma cena impressionante... O que a Mafalda me tinha descrito em tempos em Lisboa e me tinha comovido e quase que enojado, ganhou forma nessa manha em Prend Am. A Joan estava com dois voluntarios franceses (enfermeiros) a tratar da ferida dum doente, que tinha a cabeca aberta cheia de vermes e uma enorme ferida aberta que podera ser um cancro. Fiquei com o coracao apertado, sobretudo pelo sofrimento silencioso deste homem que apertava as duas maos, uma contra a outra, totalmente mudo... Quando pedi a Joan se podia ajudar, dando-lhe a mao por exemplo, ela pediu-me antes para ir desinfectar os instrumentos medicos. Claro que me vim completamente abaixo, sem conseguir entender ou aceitar tamanho sofrimento. E no meio disto questionava-me se no tratar podemos amar; se no amar podemos tratar; se podemos fazer os dois ao mesmo tempo e em que medida... Mais tarde, um dos enfermeiros que esteve a tratar esse doente veio ter comigo impressionado por nunca ter visto nada assim.


Parti entao com a Joan de comboio (deixo-vos a fotografia porque tambem vale a pena ver!) para a visita da manha, onde finalmente ia conhecer o Suku. A Pipa Roncon sera a melhor pessoa para contar a historia do Suku (Pipa, fica aqui o desafio para contares num post a versao completa e correcta!!). O que e que vos posso contar sobre o Suku? Que e um rapaz de 10 anos que a Pipa conheceu em Calcuta ha um ano e meio e estava acamado, com uma tuberculose gravissima nos ossos, paralisado. Gracas ao contacto e empenho da Joan, a uma campanha incansavel de angariacao de fundos da Pipa e a dedicacao dum neurocirugiao formidavel, deu-se um milagre no mundo da medicina e este miudo consegue hoje andar e dancar!! Embora nao se veja na fotografia, o Suku e um rapaz espirituoso, alegre e tem a sorte de viver numa casa (das Irmas da Caridade) onde e adorado por toda a gente. Esta foi mais uma ocasiao para dar gracas por aqui estar, por ter conhecido a Pipa, a Joan, o Suku e ter participado neste "miracle of love" como eles dizem. Fica aqui a fotografia do Suku a dancar para nos e para a Pipa!

Por outro lado, o ter passado a manha nesta casa foi um privilegio e um presente de Deus depois da manha dura. Por ser uma casa mais pequena e fora do centro de Calcuta, as Irmas nao recebem normalmente voluntarios e adoraram receber a visita da Joan (e minha, por arrasto)! Acolheram-nos lindamente, sempre com imensas atencoes, e sobretudo com tempo para estarem connosco e para conversarem, o que geralmente nas outras casas nao acontece muito porque estao sempre muito atarefadas com trabalho. A festa e o entusiamo chegaram ao ponto de a dada por iniciativa das Irmas, elas me terem vestido com um saree!! Olhem para nos!!! Foram as proprias Irmas que me vestiram de uma ponta a outra! Pareciam criancas a brincar com uma boneca!


Nessa tarde ainda fui para Kalighat, o que foi optimo, porque embora tenha chegado mais tarde ( tuc-tuc partilhado com 8 pessoas!!, comboio, outro tuc-tuc e mais 15 min a pe), estavam poucas voluntarias e dediquei-me mais a Ratna e a Maravi. Embora o tempo em que ca estamos seja curto, preocupamo-nos e ligamos-nos mais a algumas doentes e no momento em que vos escrevo, a doente que estava muito mal em Kalighat, a Maravi (nao sei se confundi o nome dela com o da Maya ou da Manjuri) morreu naquela mesma madrugada em que vos escrevi. Foi realmente um privilegio poder estar perto dela nas ultimas semanas da sua vida, te-la adormecida nos meus bracos e ve-la partir de tanto sofrimento. Nao deixa no entanto de ser duro... E estes sao os que sao protegidos aqui neste imenso mundo de Calcuta.

Acabei a noite a beber Tchai com o Peter, voluntario frances, e com o Richard de cabelo branco(que dorme na nossa rua) e o Kalu (taxista que nos levaria a Cidade da Alegria). O Peter veio ca pela segunda vez e desta vez, passava as tardes a conversa com o Richard e o Kalu que sao duas pessoas verdadeiramente excepcionais.

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